Seu Gaudêncio - A Fidelidade Partidária

Seu Gaudêncio é um homem simples. Lê muito, gosta de conversar e dar opinião.
Noutro dia, numa roda de amigos, falou sobre a construção do Anexo III do Senado Federal. Ao se despedir tocou no assunto da fidelidade partidária. Reunidos mais uma vez, João quis saber do que se tratava.
- Que negócio é este de fidelidade dos políticos, Seu Gaudêncio?
- Olha, pra início de conversa digo que é um problema de interesse pessoal. Se houvesse o comprometimento sério do candidato eleito com os princípios e as responsabilidades do seu partido, a questão da fidelidade seria até secundária. Mas como está é uma barbaridade! - Não tô entendendo. O político não pode sair de um partido?
- Isto seria o ideal. Mas, nem tanto ao céu nem tanto à terra. Todo homem público eleito por um partido deveria permanecer nele até o final do seu mandato. Como se fosse um clube de futebol de antigamente. Jogador que se prezava não trocava de camisa assim no mais. Tinha orgulho do seu time. Não virava casaca por qualquer coisinha.
- Não há um regulamento que impede isso? Pelo que me lembro quando um jogador iniciava o campeonato por um clube não podia mais mudar. Caso saísse ficava impedido de jogar por outro time até o final do campeonato.
- É, mas na política é um pouco diferente. Às vezes não dá para entender. Por exemplo, a Justiça Eleitoral exige que uma pessoa para se candidatar a cargo eletivo esteja filiada a um partido político, no mínimo, um ano antes da eleição. É uma regra obrigatória. A filiação numa sigla partidária, acredito eu, deveria se dar por motivo de afinidade ideológica, tradição de família, admiração de líderes e nunca por interesse pessoal. Aí mora o problema. Na verdade o que predomina é o interesse pessoal. Hoje, o partido político passou a ser um mero instrumento.
- Mas então o candidato eleito pode mudar de partido a qualquer hora?
- Sim. É a regra de hoje. Para se desfiliar não há prazo. Não há obrigatoriedade de permanência no partido. A meu ver é uma incoerência. Se a Justiça obriga um cidadão que deseja concorrer estar filiado a uma sigla um ano antes da eleição, como um candidato eleito pode mudar de partido até mesmo antes de assumir o cargo? Ora, não foi o partido que deu oportunidade ao candidato? Portanto, o cargo deveria pertencer a ele e não ao candidato. Pelo menos até que fosse cumprida uma grande parte do mandato. Todo mundo sabe que as trocas, normalmente, são feitas por interesse e não por convicção, ideologia ou qualquer motivo justificado. Veja só, li que nesta legislatura tivemos 297 trocas de partido. 161 deputados federais e 15 senadores mudaram de camiseta. Teve gente que trocou sete vezes de time, ou melhor, de partido. O interesse por vantagens pessoais imperou. Os partidos que mais perderam parlamentares foram os de oposição e os que mais ganharam foram aqueles que deram apoio ao partido do governo. Tudo por troca de favores, cargos, mensalão e outros bichos mais.
- Seu Gaudêncio, isto desmerece a classe política, não é mesmo?
- É verdade, e como! Por causa deste tipo de conduta que os políticos estão cada vez mais por baixo.
- Uma pergunta mais. Há solução?
- Sempre há. É questão de "cortar na própria carne" como disse alguém. Uma proposta seria a de impedir, sob pena de perda de mandato, o parlamentar trocar de partido até cumprir, por exemplo, dois anos e meio da sua obrigação. Isto inviabilizaria o fisiologismo a curto e médio prazo. Para aqueles que desejassem concorrer à reeleição por outro partido, mantida a obrigatoriedade de um ano de filiação, sobrariam seis meses para decidirem sobre a troca de partido. O fisiologismo iria diminuir e os "partidos de aluguel" perderiam força.
É a fidelidade meio que na marra!
- Me parece um procedimento correto e justo com o partido que ajudou a eleger o candidato.
- É isso aí, meu amigo! A prosa tá boa, mas infelizmente tenho que ir. No mais, acho que uma boa reforma política é necessária.


por Sergio Sparta
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