Seu Gaudêncio - A Corrupção

Seu Gaudêncio é um homem simples. Lê muito, gosta de conversar e dar opinião. Noutro dia, Seu Gaudêncio falou sobre "verticalização" e disse que a corrupção é um mal que atinge todos nós. José ficou na dúvida e perguntou:
- Porque a corrupção atinge todos nós, Seu Gaudêncio? Ela não é feita no topo? Nós estamos aqui embaixo. Só votamos e nada mais.
- É o que tu pensas, José. A corrupção é perversa, atinge a todos nós. É uma doença que se alastra a cada dia. E não é só na política. Ela está presente em todas as atividades. Às vezes, aparece por culpa nossa, outras por culpa do governo. Vou te dar alguns exemplos: existem aqueles que para ganhar um negócio oferecem um "presente" aos intermediários de uma compra. 10% do valor é um bom agrado, não achas? Quem paga este "presente" não é o comprador? Sim, pois o valor dos 10%, com certeza, está embutido no preço final. Quem recebeu o "presente" se vendeu, foi corrompido. Quando o comerciante não tira uma nota fiscal de uma venda não paga imposto, não é mesmo? O governo não recebe a sua parte, certo? Houve, neste caso, uma sonegação. Deixou-se de arrecadar dinheiro que poderia ser investido na educação, na saúde. Quando o governo não coíbe o comércio ilegal, ele não está promovendo a ilegalidade? Não está incentivando burlar a lei? Isto é até gozado. O governo faz "batidas" para apreender contrabando e permite que os produtos contrabandeados sejam vendidos nas esquinas. Até organiza feiras. Quando um político troca seu voto por uma vantagem pessoal, seja cargo, dinheiro, cesta básica ou prestígio, não está lesando seu juramento, suas promessas, seu patrimônio moral? Não está traindo seu eleitor? E o eleitor não está se vendendo? Trocando seu voto, sua única arma para impor sua vontade, por uns míseros trocados?
- Mas a vida é assim. É preciso sobreviver. Os políticos precisam ganhar votos e as pessoas humildes suprirem suas necessidades. - Engano seu. A corrupção não trás benefícios para a coletividade, muito menos para os humildes. Pode até trazer benefícios de ordem material, momentaneamente, para alguns. Outro engano seu é de que a corrupção se dá somente no meio dos mais necessitados. Ela é ampla, e digo mais, é mais intensa nas camadas mais abastadas. Com isto a classe que mais perde é a classe pobre, pois não recebe os benefícios da sonegação.
- E a compra de voto prejudica alguém? Trocar o voto por 20 reais é bom para o eleitor. Uma família com cinco eleitores fatura 100 reais, quase um terço do salário mínimo. É um bom reforço no orçamento familiar. Não achas?
- Em parte tens razão. O eleitor se beneficia da venda do voto. Ele deve pensar que os políticos não vão resolver nada mesmo, então é melhor faturar alguma coisa. É uma lástima que isto aconteça. O mau eleitor vive do momento e não do amanhã. Procura levar a vantagem da ocasião. Sua vida se resume no hoje. Mas não é só ele o culpado. Há duas pessoas neste processo, o corrupto e o corruptor. Os dois são maus cidadãos. O eleitor corrupto porque recebe o "presente", se vende, troca sua honra por um punhado de moedas, um pouco de alimento, uma promessa de serviço ou emprego, seja lá o que for. Um benefício pequeno e temporário. Não enxerga que está prejudicando a si mesmo. O candidato corruptor, este é o maior sem vergonha. Induz as pessoas ao erro, compra o voto por bagatela. Vende ilusões, seduz, promete, mente, faz qualquer negócio para alcançar seu objetivo. Na verdade considera o eleitor corrupto um mero instrumento para sua eleição. Não lhe tem respeito.
- É verdade o que diz. Mas, há solução para isto?
- Sempre há! É a educação do povo. Dar-lhe consciência de que com o voto não se brinca e muito menos se vende. O voto é a única arma que o povo tem. Ele tem que ser valorizado. E uma coisa deve ser lembrada: quem compra voto também se vende. De corruptores passam a corruptos. É o que estamos vendo.
- E o Estado? Não é corrupto ou corruptor também?
- Não, o Estado não tem culpa. O Estado somos nós.
- Com toda a razão. Nas próximas eleições vou pensar nas suas palavras.
- Obrigado pela companhia. Até logo!


por Sergio Sparta
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