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Seu Gaudêncio - O Sistema de Cotas para o Ensino Superior
Seu Gaudêncio é um homem simples. Lê muito, gosta de conversar e dar palpites.
Noutro dia, numa roda de parceiros, falou sobre ensino e educação. Seu Anacleto, professor de escola pública, quis saber sobre o sistema de cotas para segmentos da sociedade.
- Seu Gaudêncio, o que o senhor sabe sobre o sistema de cotas? Qual sua opinião?
- A história é a seguinte. O governo está criando condições especiais para possibilitar o acesso de estudantes ao ensino superior. Entende que é uma forma de promover justiça e igualdade social. De dar oportunidade a quem tem pouco recurso, não pode freqüentar boas escolas e cursinhos, trabalha para se sustentar ou sustentar sua família. É bom ver pessoas preocupadas com a justiça social, com os mais carentes. Mas tenho minhas dúvidas se este é o caminho certo para se alcançar justiça social. Criar formas artificiais para promover a igualdade me parece temeroso. Privilegiar uns não é discriminar outros? Isto é justo? Dá no que pensar!
- Pode explicar melhor esta questão de privilegiar uns e outros não?
- Com prazer. O governo está criando vagas em faculdades para grupos, como negros e índios. Uma forma de reparar a discriminação e integrar socialmente essas pessoas à sociedade. Tenho receio que isto possa prejudicar a integração e aumentar a discriminação. Serão guetos de privilegiados. Porque não dar cotas aos italianos, japoneses, polacos, como forma de reparar as humilhações do passado? Veja só. Se quisermos reparar injustiça, na sua plenitude, é um saco sem fundo. Todo mundo vai se achar injustiçado. Vai querer tirar uma lasquinha da "viúva". Não se pode ficar olhando para o passado sob o perigo de não seguirmos para frente. Esta iniciativa me parece discriminatória e tende a incentivar a luta de raças e de classe. Não te parece Anacleto?
- Como assim?
- Ora, o Brasil é um país onde o convívio entre as raças e credos sempre foi harmonioso. As culturas sempre se mesclaram com facilidade. Vemos isto na música, nas festas populares, nas religiões, nos esportes, nos colégios, no trabalho, na política, nas amizades. Reconheço que existem, para alguns, dificuldades para a ascensão social. Mas, a discriminação aqui não é um ato restritivo, impeditivo, voluntário, constante e presente como acontece em outros lugares. Ela é "leve" e repudiada pela grande maioria da sociedade. Sua eliminação? Impossível. Não só aqui como em qualquer outro lugar. Face às intolerâncias. Estas, sim, é que devem ser combatidas árdua e sistematicamente. No entanto, cabe aos que se sentirem discriminados se valorizarem. Buscar seu espaço. A educação, competência, dedicação, retidão de caráter, solidariedade, são aspectos que nenhuma discriminação resiste. É a forma natural de combatê-la sem imposições, lutas e revanchismos. E isto se dá pelo esforço pessoal. Não pela cor da pele, formato dos olhos, posses individuais. Muitos dos possíveis beneficiários já se manifestaram contra a medida. São pessoas de brio, que não aceitam este tipo de benesse, pois se sentem diminuídos, desvalorizados. Criar o privilégio das cotas é incentivar a discriminação. Acho que a iniciativa vai funcionar ao contrário. Vai aumentar diferenças, criar animosidades, provocar injustiças. Como justificar a um jovem branco, por exemplo, de que seu acesso à faculdade foi negado em detrimento do acesso de um jovem negro que alcançou nota mais baixa no vestibular? Será difícil de convencê-lo de que a vaga é para promover a integração social. Não estaremos criando um fator de cizânia? O jovem ultrapassado não ficará revoltado? E, em quem achas que ele vai despejar sua revolta?
- É, se acontecesse com meu filho também ficaria revoltado. Qual é o caminho?
- A solução é simples, leva um pouco de tempo, mas não causa controvérsias. É fortalecer o ensino fundamental e médio. Nivelar as condições de ensino e assim dar oportunidades iguais. Ensino superior deve ser reservado aos melhores, mais inteligentes, esforçados, capacitados. À elite pensante. Eu disse elite pensante, intelectual, não confundir com classe rica. Os que não lograrem êxito, ricos ou pobres, devem buscar sua capacitação no ensino profissional de qualidade. Já vou indo. Até a próxima semana.
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