Seu Gaudêncio - A Reeleição

Seu Gaudêncio é um homem simples. Lê muito, gosta de conversar e dar opinião.
Outro dia, na roda de amigos o assunto foi sobre corrupção. João, que acompanhou a conversa calado, mas com muita atenção, ficou com dúvida e perguntou:
- Seu Gaudêncio, o senhor falou que a corrupção é um mal que atinge a todos nós e que nós somos o Estado. A tal de reeleição não é parte neste processo?
- É, dá o que pensar. A reeleição foi instituída pelo Congresso Nacional em 1997. Algumas pessoas acham que foi uma boa medida, outras, ruim. A maioria dos políticos acha que foi boa, a sociedade, que ficou de fora, olha ela com desconfiança.
- Mas, porque a reeleição foi criada?
- A meu ver, com o pretexto de beneficiar o povo através da permanência do bom administrador nos cargos de presidente da república, governador e prefeito. No entanto, na realidade, foi uma "briga" pela permanência dos titulares e suas equipes no poder. Ouvi dizer que houve mutreta na votação de aprovação. Pelo que estamos vendo hoje, até é possível.
- Quer dizer, Seu Gaudêncio, que a reeleição é ruim?
- Acho que a sociedade saiu perdendo. Pois, alguns mandatários ficam mais preocupados em se manterem nos cargos do que cumprirem bem suas responsabilidades de administrador. Nós sabemos que alguns políticos visam, há curto prazo, captar votos através de ações demagógicas ou de resultados imediatos. Ficam prejudicadas as ações de implantação e resultados a médio e longo prazo, que só irão dar frutos além do seu mandato. Isto é fazer politicagem e não política. Isto é enrolar e não administrar. O que vemos são governantes preocupados em se defender, algumas vezes com razão, de críticas sobre medidas que favoreçam sua reeleição. A oposição, de sua parte, tudo faz para desconsiderar o que foi feito ou deixou de ser feito, ao invés de avaliar as realizações e projetos com seriedade e suas conseqüências benéficas ou não para a sociedade. É a luta para alcançar o poder a qualquer custo, mesmo com prejuízo para a coletividade. Há, ainda, o perigo do governante ficar desestimulado no segundo mandato. Oito anos é um tempo considerável. Por trás de tudo há, também, o interesse do staff, que briga pela manutenção do seu emprego arduamente conquistado na campanha eleitoral. O pior é política da terra arrasada: administrar mal e deixar os abacaxis para o próximo governante. Sabes quem sofre as conseqüências? Nós!
- Uê, não há reeleição para senador, deputado e vereador? Para estes o dispositivo da reeleição é bom?
- Para o Poder Legislativo, pode ser feita uma exceção. Mas, não tão ampla como é hoje. Um parlamentar pode se candidatar à reeleição quantas vezes quiser. Há senador, deputado e vereador com mais de 20 anos de mandato. O que acho prejudicial à administração pública. Por mais que uma pessoa seja capacitada. Por mais que seja dedicada à causa pública. No meu entender, o tempo ameniza as forças e desperta interesses, estabelece a rotina, cria "feudos", forma "panelas", acentua vícios, esmorece virtudes. Passa, então, a prevalecer a segurança do emprego ao interesse público, a arrogância do poder à dignidade do mandato.
- Mas, Seu Gaudêncio, assim estaremos relegando a experiências dos mais antigos. Há uma forma para equilibrar esta equação?
- Sempre há. Poderia ser estabelecida uma regra para a obrigatoriedade de um intervalo de uma legislatura, depois de dois mandatos consecutivos, por exemplo. Isto daria oportunidade de renovação e possibilitaria os impedidos de ocuparem postos na administração do Executivo. Hoje, não é comum um parlamentar eleito deixar seu mandato para exercer um cargo de secretário ou ministro? Lógico, tudo em nome de articulações políticas e interesses partidários e pessoais. Além do mais, sempre ouvi dizer que o poder corrompe. Aliás, dá pra se notar. Assim, quanto menos tempo a pessoa permanecer nele, menor o tempo para corromper e ser corrompido. Não achas? E ninguém é insubstituível. Sangue novo é muito bom. O importante é "quebrar" a eterna permanência no mesmo cargo. Serão mais pessoas participando do processo eleitoral e da política partidária. É uma forma de fazer a sociedade crescer politicamente. Haverá alternância nas legislaturas. Já reparaste que sai ano entra ano e são sempre os mesmos? As caras não mudam e a conversas são sempre as mesmas? Não digo que a renovação deva ser como num time de futebol dos nossos dias: ninguém consegue decorar a escalação. Mas por favor, um time velho sem renovação cai pra segunda ou terceira divisão.
- É um caso a pensar, mas será que os políticos vão aceitar isto?
- Se houver pressão da sociedade. Se ela for participativa, não se omitir. Quem sabe? Bem companheiros, vou indo. Até que gostaria de falar sobre a nossa carga tributária, já que o Imposto de Renda vem aí. Mas, fica pra outro dia. Até mais!


por Sergio Sparta
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