|
Seu Gaudêncio - Impostos
Seu Gaudêncio é um homem simples. Lê muito, gosta de conversar e dar opinião.
Noutro dia, numa prosa com amigos, falou sobre reeleição e despediu-se dizendo que iria fazer o Imposto de Renda. Gumercindo, que acompanhou tudo atentamente, com uma pitada de malícia, perguntou:
- Seu Gaudêncio, o senhor ia fazer o Imposto de Renda, não é? Pagou ou recebeu?
- Não é que paguei ainda mais que no ano passado. Tive azar e sorte. Azar porque no ano passado a Marieta teve que ir para o hospital e pude deduzir uns trocados. Paguei menos. Sorte porque neste ano a saúde lá em casa vai muito bem, obrigado. Em compensação tive que pagar mais.
- Sou funcionário público. Fico indignado, disse José. Não entendo o espírito da lei do Imposto de Renda. Recolho, mensalmente, o imposto sobre o meu salário e quando vou fazer a prestação de contas, ainda pago mais. Ora, o "leão" não deveria reajustar os valores recolhidos antecipadamente? Não estou pagando adiantado? Por que não corrige os valores assim como ele faz quando a gente tem que pagar?
- Tens razão, disse Gaudêncio. O "leão" não quer saber de nada. Só de recolher plata. O Brasil é um dos países que têm a maior taxa de impostos do mundo. Perde para países como a Suécia, Dinamarca e Alemanha. Com uma diferença: lá o dinheiro recolhido volta para o povo em benefícios. A educação e a saúde são gratuitas e de boa qualidade. Há segurança. As cidades são limpas e organizadas. O serviço público é eficiente, sem grande burocracia. E assim por diante. Aqui ele se perde nos "valériodutos", nas obras inacabadas, na ineficácia do gerenciamento administrativo, nas propinas, nos interesses escusos pessoais, políticos e partidários. E por aí vai. Os governantes cada vez querem mais dinheiro para tapar os buracos da sua incompetência. E, para isto, metem a mão no bolso do contribuinte. Você sabia que nós trabalhamos mais de quatro meses por ano só para pagar impostos? Dizem que duas coisas são definitivas na vida das pessoas: a morte e os impostos. Ainda há a bi-tributação. Caso comum. É imposto sobre imposto. Tu não pagas imposto do teu terreno, da tua casa, o IPTU? Do teu automóvel, o IPVA? Da tua movimentação bancária, o IPMF, que era para ser provisório e destinado à saúde, e hoje é praticamente definitivo e vai para não sei onde? E, depois, não pagas o IR sobre eles? Isto é justo? Por que não deduzi-los na prestação de contas?
- Então o senhor não acha as deduções apropriadas?
- Que dedução? A cada ano o governo suprime valores que podem ser deduzidos. Com isso arrecadam mais. Depois, os reajustes anuais das deduções, quando há, são mínimos. A dedução para com instrução, por exemplo, que é mais do que justa, é insignificante para atender um ensino de qualidade. Não queremos um povo melhor preparado? E isso começa com nossas crianças aqui no município.
- Mas, Seu Gaudêncio, o prefeito da cidade fica se lastimando que o dinheiro fica todo com a União. O que sobra é migalha. É verdade?
- É verdade. A maior fatia fica lá em cima. Aqui em baixo, nos municípios, onde tudo começa, onde o dinheiro é melhor aplicado e fiscalizado pela população, é reduzido. O Poder Central segue o que diz o ditado: "quem parte e reparte e não fica com a maior parte, é bobo ou não tem arte". Temos que rever as parcelas destinadas a União, aos estado e aos municípios. Já vou indo. O assunto está me chateando. Até amanhã.
|